ESCREVER POR PRAZER

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
TRADUZIR A BÍBLIA

  

 

            Na sequência de perguntas que me são feitas, de reflexões sozinho ou partilhadas, e da experiência e constatções que tenho acumulado pensei deixar registadas no meu blog estas considerações.

          ( Para o "o que der e vier..." )

 

 

            O fim do Século XX foi cenário, em termos culturais, do aparecimento de muitas Versões da Bíblia

 

            Em Portugal pelo menos, sempre se julgou que para um empreendimento desses, editar uma nova  Versão bíblica, eram precisas pessoas de alto nível académico e universitário, o mais alto que fosse possível, e que soubessem muito das línguas originais, hebraico e grego.

 

            Julgo ter sido um pensamento não muito acertado.

 

Por um lado ninguém se põe a traduzir a Bíblia como um outro livro qualquer, em que se deve dominar a língua 1, de partida, tanto como a de chegada e depois é só fazer seguir a transliteração, com competência linguística.

 

Por outro lado, ninguém se põe a traduzir um texto como a Bíblia tendo à sua frente uma edição crítica textual e linguística do texto original,  lendo frase a frase e transpondo o texto para português depois de queimar as pestanas a reler cada frase em hebraico ( ou em grego ) e após reflexão amadurecida sobre a melhor equivalência dinâmica, moderna, em língua lusa, e então passá-la para o papel...!

 

Hoje não se traduz assim a Bíblia !   Os tradutores da «Missão-Wicliffe-Para-A-Tradução-Da-Bíblia», por exemplo, não poderiam  limitar-se a isso !

 

Mas é essa a ideia que se tem.

 

Os Tradutores Wicliffe têm a sua metodologia própria específica.  Mas fora dessa área o que acontece é o seguinte :

 

A         O Tradutor, é suposto conhecer o hebraico e o grego, não se lhe exigindo que seja um especialista...  E quando aborda o texto sagrado ele já o conhece bem, mesmo muito bem, visto ser  -  é uma premissa incontornável   -  um leitor assíduo da Bíblia.

 

B         Depois consulta outras versões,  e noutras línguas que conhece bem,  verifica o fundamento das diversas opções tomadas, sobretudo nas estruturas frásicas  mais complexas ou com riscos de ambiguidade ou de indefinição semântica.

 

C         Recorre ao auxílio de bons instrumentos de apoio, sobretudo em inglês.  Comentários linguísticos, Comentários exegéticos, e também hermenêuticos, bons dicionários.  E outros.

 

D         Faz a sua opção por uma frase ou expressão que ele considera a melhor, de acordo com a sua própria formação como cristão, como amante e respeitador do texto que é a Palavra de Deus, e também como exegeta.  Qualquer Tradutor bíblico tem de ser em certa medida, ajudado pela sua própria reflexão em termos hermenêuticos.  E por fim como falante do português, fluente e “normal”, quer dizer :  livre de influencias regionalistas ou academico-eruditas, ou outras.

 

E         O Tradutor não pode trabalhar sozinho.  Parte-se do princípio que tem outras pessoas a quem pede conselho e opinião, aqui e ali, conforme as necessidades.    E por fim quando terminar um determinado bloco de texto ( um livro profético, um Evangelho, uma epístola, etc ) deverá submeter o seu texto a um grupo eclético de pessoas de variada qualificação : uns mais académicos, outros mais falantes correntes, homens, mulheres, mais velhos, mais novos, de níveis profissionais diversos, e deixá-los ler a sua versão e comentar.  Tirará daí conclusões.

 

F          Naturalmente ele está inserido numa equipa de Tradutores.  A Tradução da Bíblia nunca poderá ser um trabalho senão colegial.  Dentro dessa equipa ele vai ouvir os seus colegas de forma a que os fundamentos e os critérios para as opções linguísticas e mesmo para aquelas que interferem na área teológica ou doutrinal sejam sempre fruto de uma decisão assumida pelo conjunto. (1)

 

 

Daí portanto, em conclusão, que as qualificações de alguém que é chamado como Tradutor da Bíblia deverão consistir nas seguintes :

 

         Deverá ser um cristão conhecido e com provas dadas quanto ao seu empenho na vida cristã, quanto ao seu estudo e amor da Bíblia e quanto aos conhecimentos bíblicos e teológicos que possui.  Mas que seja capaz de ser isento quanto a influências doutrinárias específicas; de tipo denominacional, por exemplo.

 

         Deverá  conhecer as línguas originais, o grego e o hebraico, naturalmente. Mas não é indispensável que seja um perito acabado ou altamente qualificado nessa área ( J. F. de Almeida não conhecia essas línguas quando começou o seu trabalho.  Mas estudou-as depois com empenho ).

 

         Deverá ser conhecido, com provas dadas, pelo interesse e estudo exegético, e também hermenêutico, do texto bíblico.

 

         Deverá poder ler com facilidade algumas línguas estrangeiras para poder servir-se dos múltiplos instrumentos de apoio.  O inglês prioritariamente. Mas se possível também o alemão, o francês, o espanhol e outras.

 

         Deverá ser reconhecidamente alguém que sabe trabalhar em equipa e que sabe ouvir os outros.  Deverá ser humilde e não auto-suficiente.   Por fim e não menos importante : deverá saber orar e trabalhar na dependência constante de Deus.  Isto até teria de constituir a qualificação nº 1.

 

         Deverá ser um falante corrente e “normal” não marcado, tanto quanto possível, por traços de regionalidade ou de níveis socio-linguísticos não correntes.  Deverá dominar e conhecer a sintaxe e a semântica da sua língua. (2)

 

 

As Traduções da Bíblia por iniciativa da Missão Wicliffe são um caso à parte.  Têm a sua metodologia própria, específica, hoje já com apoio tecnológico moderno informatizado.

 

Mas muitos perguntam-se com que critérios são feitas traduções e re-traduções, da Bíblia em linguagem actualizada que se vão efectuando por todo o mundo constantemente.

 

As Traduções inter-confessionais por equipas constituídas por elementos protestantes e católicos são projectos de que se ocupam em geral as Sociedades Bíblicas Unidas.

 

Essas Traduções têm uma vertente inegavelmente apreciável que é a participação num trabalho comum de dois ramos do Cristianismo que têm divergências doutrinárias não escamoteáveis.  Seja como for, a formação de frentes comuns nessa como noutras áreas, de combate ético por exemplo, são bons sinais de que não há só divergências.

 

No entanto, no meu entender, o cuidado com o que nomeio acima as qualificações 1ª e 3ª deveria ser muito acautelado.

 

Não me preocupei nestas reflexões com critérios de apreciação de uma “boa tradução bíblica”.   O que escrevi foram,  em síntese, ideias sobre aquilo que eu entendo serem as competências básicas para se participar numa equipa de Tradução da Bíblia.

 

Uma coisa é certa.  As Editoras e as Empresas livreiras cristãs  -  aliás tal como os cristãos em geral  -  deveriam estar aptos para a apreciação a que me referi :  «Tem a Bíblia, a Palavra de Deus, na edição que estou comercializando, credenciais fiáveis ?»

 

 

 

(1) NB«O LIVRO»  foi assim traduzido.

 

(2)  Dou-me conta de que várias Versões modernas em francês, por exemplo, usaram esta metodologia.

 

 

J.Pinheiro.  Em Junho 2009.

 



publicado por João Pinheiro às 20:24
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Sexta-feira, 15 de Maio de 2009
A Tradução da Bíblia

 

 

Pediu-me a Sociedade Bíblica de Portugal, SBP, recentemente, que aceitasse ser entrevistado para o Programa «Luz das Nações» da Aliança Evangélica Portuguesa,  AEP, na qualidade de colaborador da equipa de Tradução da SBP, e no âmbito da Feira do Livro actualmente a realizar-se, como anualmente acontece nesta época, no Parque Eduardo VII em Lisboa.

 

Não há Versões bíblicas "oficiais", "solenes", "litúrgicas". Nós o evangélicos habituámo-nos ao falar antigo de João Ferreira de Almeida ( e os ingleses à conhecida por «King James» Mas o grego do início do Cristianismo era um "falar comum" da zona do Mediterrâneo.

 

Tenho pensado  -  e expressei ali esta ideia  -   que os Tradutores da Bíblia, mais do que serem peritos muito sabedores das línguas originais, grego e hebraico ( e aramaico ), para cujo manuseamento hoje, aliás, há inúmeros e excelentes instrumentos de apoio muito acessíveis,  é-lhes pedida competência particularmente em quatro vertentes.

 

Serem homens e mulheres que acompanham com cuidado a atenção os estudos modernos de exegese e de hermenêutica bíblica.  No meu entender isso é primordial.

 

Estarem, aptos a usar a linguagem actual, de nível corrente.   A língua é como um corpo vivo que se altera em poucas dezenas de anos...   

C.S. Lewis achava que a Bíblia deveria ser periodicamente retraduzida para actualização linguística !  Escreveu-o no Prefácio à tradução das «Cartas às Igrejas Jovens», por Phillips em 1947, no Reino Unido, uma  das primeirasbversões modernas do testo bíblico. 

Por isso os Tradutores bíblicos não podem ter hábitos linguísticos conservadores ou regionalistas, e também não devem ser ousados nesse domínio.  Têm de ser falantes da norma correntes, actual.

 

Saberem usar de um estilo moderno de configuração da frase, nos desenvolvimentos dos diálogos, no "discurso profético", nas narrativas históricas, no fraseado poético.  É o que eu chamo o "estilo".   É  outro requisito importante.  A linguagem utilizada deve ser a da comunicação, fática,  fluente, apelativa, que estimula de imediato o leitor.

 

E por último, mas de não menor exigência, os Tradutores serão pessoas de muito respeito e amor pelo texto sagrado, inflexivelmente fiéis ao pensamento e à ideia original  !   Ainda que não a traduzam de forma liberalista mas antes dinâmica.   Devem ser conhecidos pelo estudo constante que fazem do Texto sagrado.

 

Porque está a ser retransmitida, e como que reformulada ( que enorme responsabilidade ! ) a Palavra de Deus.

 

 

 

 



publicado por João Pinheiro às 19:51
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