Tive enfim ocasião de pegar no "Caim", do Saramago.
Aliás estava a terminar a leitura, frequentemente interrompida por outras coisas, do "Tratado da Lucidez" de que gostei. Tal como do "Tratado da Cegueira".
O da Lucidez achei-o na FNAC em tradução francesa, e trouxe-o também por curiosidade; para ver como é o Saramago em francês...
Pontuação, a mesma ! Mas uma boa tradução, pareceu-me.
Voltando ao «Caim» : Medíocre !
Sem elevação artística. Sem criatividade.
Uma espécie de "tratado" boçal anti-Deus, pretendendo fazer uma desmontagem bíblica mas sem capacidade de elevação intelectual. Sem capacidade de percepção mental e de sentido espiritual do mundo com que se meteu.
Com momentos de um erotismo rasteiro. Talvez com o intuito de prender a atenção de alguns leitores menos interessados pela temática de capa.
Compreende-se o que Lobo Antunes disse dele, há pouco tempo ( mais ou menos isto ) :
Perguntaram-lhe ( questão posta por Judite de Sousa ) :
- Que acha do Saramago ?
- Tenho medo ?
- ??
- Medo de, em velho, me tornar como ele...
Pobre Saramago. Nem vale a pena perder muito tempo em comentários...
Percebe-se, na verdade, em Saramago um "problema mal resolvido" com Deus, e com a Bíblia.
Saramago carece de água pura e abocanha ao lado, no lodo.
Segue um texto do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa que me permiti copiar ( foi possível fazê-lo sem qualquer restrição ) do seu blog :
(...)
PERPLEXIDADE.
Porquê tanta polémica por ficção? A não ser como lançamento. Mesmo as ideias de criticar, na Bíblia, factos que se julga serem inverosímeis ou de nela encontrar repositório de suppostas malfeitorias universais não resistem a um segundo de análise. (...)Gente há que esquece que a Bíblia cobre o percurso da Humanidade, e esse é feito de virtudes e de qualidades, mas não menos, para não dizer mais, de crimes, defeitos e vícios. Omiti-los seria escrever, porventura, ( e apenas ) acerca de Deus ou de deuses. Mas, não certamente da odisseia dos humanos. Isto, independentemente de se ver ou não a Bíblia como livro sagrado e como grande obra literária.
(...)
É claro que não subscrevo tudo o que MRS diz.
A Bíblia, sobretudo o VT, não pode ser interpretada sob um "literalismo" cego, sem discernimento. Como se fosse um tratado científico. Mas também não pode ser considerada como um simbolismo contínuo.
Não nos compete a nós declarar o que Deus pode realizar, ou o que Deus entende fazer de certa maneira, ainda que nos parecendo insólita. Se começamos a pôr em causa a liberdade de Deus, então não se chega a lado nenhum. e é o vazio...
Mas parece-me um comentário, o de MRS, com lucidez.
Um Escritor - se for um grande Escritor; e sobretudo se for um Nobel - espera-se que seja sempre um Pensador.
Porque a sua escrita, e a sua Obra, têm uma visão abrangente e universal, não local e particularizante, restringente, sobre a vida e as pessoas.
Por isso não pode deixar de ser um Pensador. Não obrigatoriamente um Filósofo. Mas um "narrador de vida", alguém que traz para a escrita uma determinada visão do mundo.
Ora José Saramago lê-se bem, com agrado.
Mas como Pensador... fico frustrado !
Será por ser autodidata ?
Num livro curioso, «Uma longa viagem com José Saramago» ( da autoria de um jornalista ), o Escritor Prémio Nobel, entrevistado, faz afirmações sem nenhum fundamento racional e argumentativo, revelando uma ignorância incrível quanto à temática do Cristianismo, e que nos deixa perplexos.
Veja-se por exemplo a pág 75 e 76 ( edição da Porto Editora, março 2009 ) ! E outras mais, sobre Educação, Política, etc. :
«(...) Como não nos passa pela cabeça que Deus soubesse da existência do hidrogénio (...) O chamado Cristianismo que não sendo uma ameaça nuclear pode ser tão perigoso como ela(...)
Nos Estados Unidos há pelo menos cinco ou seis estados onde o Darwuinismo foi abolido(...).
Na Bíblia...onde se diz, por exemplo, que os dinossauros já estavam no paraíso...e que eles se tornaram carníovoros por causa do pecado original...(...).Negam as Provas do fósseis(...)
Há grupos ( os evangelistas ) empenhados em que não descubramos a verdade...
São fábulas com que nos enganaram durante milénios e milénios...
Os Evangelistas são uma arma de poder...» ( Deve querer referir-se aos Evangélicos )
Isto numa só página !!
Que chorrilho !
Para um Nobel que diz correr o mundo frequentando assembleias de eruditos "é obra"...
Agora : Que a sua prosa, com o seu estilo próprio, a sua característica pontuação autónoma, que é uma escrita que se lê bem, isso é.
Só que faz pena.