Não me esqueço do discurso de 10 de junho de António Alçada Baptista, em 1997 na Cidade de Chaves em que, já na parte final do seu texto ( que tenho comigo ) lembrou a incongruência das palavras do Hino Nacional em relação a Valores atuais de Diálogo e de Tolerância.
Dizia ele, nos seu Discurso, feito perante as mais altas Autoridades Institucionais da Nação, que gritar «às armas, às armas» e «contra os canhões marchar, marchar», e fazer cantar isso à juventude não faz sentido numa Cultura de Entendimento, de Compreensão, de Não-Agressão.
É difícil não lhe dar razão.
Aliás o mesmo se passa, por exemplo, com a Marselhesa. E com outros. Um Hino Nacional com uma letra desfaza em relação ao tempo em que vivemos fica sem significado.
Mas aquele discurso foi uma voz isolada. Talvez muita gente concorde com ele. O certo é que as reações por parte das Entidades oficiais foi de frieza. "Não se toca nos símbolos da Pátria, nem na Bandeira nem no Hino.
A mim o que me preocupa mais é a dicotomia entre o professar e o pensar, entre o que se diz, ou o que se canta, como neste caso, e aquilo de que se está convicto.
Porque está em causa uma questão de hipocrisia. Simplesmente !
Julgo que esta é uma vertente significativa da nossa Cultura : eu grito «às armas, às armas» mas não estou minimamente interessado em fazê-lo, em concretizá-lo. Serei até contra. É apenas uma expressão "simbólica" sem força pragmática.
Uma coisa será então o que digo. Outra o que penso... !
Essa duplicidade é assim transmitida na Família, na Escola, na Sociedade e até na vida religiosa. Mais ou menos subliminarmente.
Está errado.
Não posso pôr-me a cantar em termos laudatórios ou apelativos algo que no fundo repudio e combato.
Saiu em outubro de 2009, pelo Círculo de Leitores um livro muito interessante sobre Intolerância em Portugal, "Dança dos Demónios", com uma dezena de estudos sobre a intransigência em relação a diversas correntes ideológicas.
Interessou-me particularmente o Anti-Semitismo e o Anti-Protestantismo. Este último do Prof João Francisco Marques da Universidade do Porto, que me pareceu muito informativo.
Transcrevo agora, e apenas por curiosidade, uma linhas deste segundo texto, o quarto dos dez que constituem o livro.
Dom Jerónimo Osório, bispo de Silves, figura destacada da Cultura portuguesa do séc. XVI escreveu assim referindo-se aos Evangélicos/Protestantes ( Pág. 213 ) :
«(...) Homens verdadeiramente audaciosos, presunçosos, soberbos...amordaçam a razão humana, roubam a liberdade de opinião, agrilhoam a vontade...esses homens evangélicos fomentam a missão do Diabo...o ódio da Cruz que esses autores da pestífera novidade abertamente sustentam...obcecados pelo seu amor próprio...»
Mas deste estilo lemos mais, muito mais. Neste e nos séculos seguintes !
Na altura o analfabetismo era geral e a única voz que se ouvia falando em nome da religião cristã era a destas homílias mas missas.
Com textos e prédicas deste teor da parte de um bispo com responsabilidades, no que era acompanhado por muitos outros, não admira que a Reforma não tivesse chegado até cá, em Portugal, num século do Renascimento e de emancipação intelectual.
Preocupações com problemas físicos, de saúde, será que reduzem, em geral, a fluência na reflexão e na arrumação das ideias ?
Não sei. Falo pelo que sinto quanto a mim.
O que acontece e deve acontecer com muitas gente, é que, quando se passa por situações físicas de cuidado, a mente está mais concentrada numa determinada área de preocupações e não está livre de divagar ou de refletir sobre outros assuntos.
Mas o facto de estar a escrever sobre isto mesmo é sinal de que me sinto capaz de reflectir com certa autonomia em relação às circunstâncias físicas que me têm limitado, embora as preocupações se mantenham.
As capacidade para a reflexão é um dom do Criador. E de alto valor !
Por um lado ajuda-nos a ver claro e a não nos deixarmos ir à deriva, desde que não nos faltem referentes sólidos que garantam um pensamento equilibrado e são...
Por outro é uma "fuga", ou antes uma deriva à concentração numa só área, sobrecarregando o espírito de cuidados.
E como cristãos não nos faltam pontos de apoio para uma reflexão confiante e saudável.
Têm razão, com certeza.
Há certamente gente que se multiplica em cuidados com a Natureza por outras razões : porque é bela, porque nos dá coisas fantásticas e boas. Ninguém os critica. Outros têm para com a Natureza um respeito com laivos de culto pagão. Ou animista. Ela é, para esses, como que um deus ou a manifestação de um deus. São espiritualidades de tipo "nova era".
Os cristãos também velam e zelam pela Natureza. Animais incluídos, claro.
Mas aí acabamos por constatar uma especificação básica : os cristãos estão preocupados com a Natureza, solidarizam-se com todas as medidas que induzam à sua protecção, ao seu respeito, identificam-se com todos os que lutam contra a poluição e contra a dissipação desse Património riquíssimo em fontes e recursos vitais, mas frágil porque é fácil destruí-la em muitos domínios naturais. No entanto fazem-no por razões que conotam com o respeito pelo Criador e por princípios bíblicos.
Deus criou o mundo. E declarou que era bom. Ou antes : muito bom. Coisa que não é difícil de reconhecer... E deu à Humanidade a responsabilidade de cuidar dela ! Génesis 1 : 28.
E aqui está ! Trata-se então de assumir um economato !
Não me digam então que a posição dos cristãos não é mais coerente, mais sólida, mais bem fundamentada !
E também menos egoista, menos interesseira, menos calculista.
Também não é gratuita. Tem um retorno : a satisfação de um mandato que é cumprido. O prazer de fazer o que é recto à luz de um código divino.
João Calvino escreveu, num Comentário ao livro de Génesis, que "cada um de nós é o ecónomo de Deus em tudo o que lhe é dado". Eu diria antes «em tudo o que lhe é emprestado» ! Temos como que devolver ou antes, que dar conta de tudo ao Proprietário, bem cuidado e tratado...
O distraimento desse objectivo, o incumprimento desse mandato divino como ecónomos responsáveis ( não só da Natureza mas de muita coisa mais... ! ) é uma expressão da rotura na relação do Ser humano com Deus. A Bíblia chama-lhe pecado.
A Redenção dessa fractura na vinculação Ser humano/Deus não atinge apenas os humanos. Abrange o mundo criado.
Esse Universo que saiu do Poder criador supremo expressa o "intelligent design" e a inteligência fecunda de Deus nosso Pai e Redentor ( por Jesus Cristo ).
Mais do que ninguém, os cristãos são chamados a mudar de estilo de vida, e a corrigir, a rectificar comportamentos que agridam ou não considerem, no devido grau, a Criação !