Mas...
Essa adversativa, que põe "areia nos rolamentos", que empata o avanço de certas ideias...
No entanto... é assim mesmo. Certas coisas não avançam sem que se ponham os pontos nos ii. É que não pode haver progresso sem clarificação racional.
Tolerância aliás é uma virtude. Mas convicções seguras não se vendem à tolerância.
Tolerância é bem uma ideia fundamentalmente cristã.
Sem dúvida que já os gregos, e outros, a debatiam. Mas é o Cristianismo que a impulsiona e generaliza, partindo do respeito pelo outro, pela vida e pelo pensamento do outro. Ainda que pretendendo converter esse outro a Deus. Fruto certamente, e reacção, em parte, à intransigência despótica que sofreram, logo no início, da parte do império romano. Sim, a intransigência de uns ensinou a tolerância aos outros.
E depois foram eles próprios, os cristãos, que - humanos e falíveis - caíram em tantas ocasiões, dramaticamente, tragicamente, estupidamente, ao longo da História, em formas de intolerância, para com judeus, para com muçulmanos, para com pagãos.
«Mísera sorte ! Estranha condição! » - diz o Velho do Restelo, do Camões, ( Canto IV ).
Mas temos de estar atentos e de nos arrependermos, católicos, protestantes, todos. O Papa tem-no feito. Os protestantes fazem-no através dos seus líderes.
Dizia eu que a Tolerância tem de ser esclarecida. Uma coisa é o respeito pela liberdade de cada um, liberdade de pensar como entende. É sua a responsabilidade pelas suas opções.
Outra coisa é o direito de todo e qualquer um, de pretender afirmar explicitamente, seja perante quem for, a validade, a racionalidade e o fundamento daquilo que pensa, daquilo em que crê, da sua Fé, das suas opções.
Proselitismo ? Porque não ? Chamem-lhe o que quiserem. O Cristianismo nasceu de um proselitismo avassalante, transformador, regenerador, agitador, questionante. Mas, na sua genuína militância, nunca forçando ninguém. E assim conquistou almas, Povos, Culturas para Deus.
Sou tolerante. Devo sê-lo.
Mas ninguém pode - nem deve - calar-me.
O Ser humano gosta de dar.
Dar, é bonito, é bom. Mal de nós, mal deste mundo, se não houvesse esse gosto íntimo de dar.
Depende do que se quer dar... claro ! Mas dar satisfaz ao "eu". Transmite um certo sentimento de auto-valência : «Eu até "posso dar", até gosto de dar» !...
Mesmo quando damos em anonimato ficamos bem connosco...
Agora : Receber. Gostamos da mesma forma ?
Claro que o tal "eu" gosta de satisfazer apetites recebendo...
Amar é dar. É essencialmente dar. Mas é também saber receber... Amar é ser grato. É mostrar que ficamos felizes. Que ficamos mais completos... Nem sempre isto lembra a toda a gente.
Esta pequena reflexão faço-a lembrando o Natal.
É que Natal é visto como uma Festa de Família, uma Festa generosa. E está certo. ( Daí... o apelo ao consumo, nesta época ).
Natal é uma Festa em que se dá. em que se dão coisas. Isso aproxima. Dá conforto interior.
Mas Natal é mais do que isso : é fundamentalmente uma Dádiva, um Dom de cima !
É Deus - queiram ou não queiram, que se lembrem ou se esqueçam, sobranceira e indiferentemente - é Deus que dá o seu Filho. Como Salvador. Um Salvador que virá, três décadas depois, a morrer vilmente sob a crueldade e a recusa humana.
Mas que ressurge ! E que é o Salvador divino que nos DÁ a Graça de um Deus próximo, que nos ama.
E daí o título deste post : Saber receber a dádiva superior, a dádiva de Deus.
E é isso que é difícil para o orgulho do Ser humano. «Receber ? Receber Paz de Deus ? Salvação de Deus ? Não, obrigado. Não preciso. Cá me vou governando sem isso...»
Natal é basicamente saber RECEBER. Saber receber o donativo divino.
Há assim uma corrente de horizontalidade que se contrapõe à verticalidade da essência do Natal !
Charles Colson conta no seu último livro «THE FAITH» uma histórira cheia de sentido e que não vou deixar de referir aqui.
O diabo terá aparecido a São Martinho de Tours, o santo cujo nome inspirou os pais de Lutero, quando este nasceu.
Mas para enganar o santo, Satanás disfarçou-se sob a aparência daquilo que São Martinho imaginaria ser Jesus Cristo.
O santo ia para se ajoelhar e adorar quando reparou nas mãos da figura que estava diante de si.
E exclamou : «Mas... onde estão as marcas dos cravos ( dos pregos )?!...»
E a figura desapareceu.
Cristo sem a Cruz - como quer o Corão, por exemplo - é um mero pregador moral, histórico. O Cristianismo sem Cruz de Cristo é um simples estimulante ético. Não justificaria o seu enorme impulso revolucionário.
O Cristianismo é um Poder regenerador e resgatador ( "remiçor").
Na Cruz Cristo pagou o preço do meu pecado perante a Justiça e a Santidade de Deus.
Mais nenhuma religião tem uma tal base "jurídica"!
É essa a consistência, é essa a Força espiritual da Fé cristã.
Os seres humanos, escreveu C.S. Lewis, o grande cristão, Professor em Oxford, dividem-se entre :
Aqueles que dizem a Deus,
«Faça-se a Tua Vontade !»
E aqueles a quem Deus diz,
«Faça-se a tua vontade...».
Estou entre os primeiros.
Recebemos uma notícia, através do »«Comité Protestant Evangélique pour la Dignité Humaine», de França, informando que houve em Paris uma Exposição supostamente de Arte Contemporânea, a 35ª de um Organismo com a sigla FIAC, na qual se mostram obras zoófilas e pornográficas, alguma sugerindo, implicitamente, atos sexuais entre humanos e animais.
Houve pessoas que protestaram, naturalmente. E fizeram-no de tal forma que a Polícia teve de intervir e o caso foi levado à Justiça por atentado ``a dignidade humana.
Mas quando a Polícia interveio foi assobiada e mal recebida por outros grupos que achavam isso uma "ofensa à liberdade de expressão" daquilo que consideram um "discurso artístico específico".
Fica-se boquiaberto perante mais uma aberração do pensamento moderno - ou, se quiserem, pós.moderno - amoral, anormativo.
Sobretudo que - achamos nós, e muita gente - é claramente um prenúncio de algo que até já neste blog lembrei : o risco de se caminhar para a aceitação geral e mesmo para a legalização de, por exemplo, a pedofilia, e até o sexo com animais... !
Será exagero falar-se de tempos apocalípticos ?